sábado, 29 de outubro de 2011

A Luta

A luta no sentido místico de modelar idéias é contraposta à briga, na forma estúpida de emitir ou impor a personalidade. Geralmente, quando diante de nós se apresenta um rival em particular, dão-se as condições para iniciar um combate. Como é lógico supor, faremos todo o possível para ganhar, deixando bem clara a nossa superioridade sobre o qual nos tem cruzado a sorte. Então, se prestarmos atenção nesse detalhe, descobriremos que, na maioria dos casos, quando começamos um combate com essa maneira de pensar, acabamos surpreendidos pela derrota.

Quando se fala em querer ganhar, diz-se pôr ao serviço desta finalidade toda a nossa força e astúcia, que fortificarão o espírito de competição. Certamente, se de nós se apodera o espírito competitivo, outro tanto se passará com nosso oponente. Deste modo perdemos a harmonia da luta, já que tratamos de impor nossa lógica de acordo com as regras de combate que conhecemos, diante de alguém que pretenda fazer exatamente o mesmo. Por isso devemos ter consciência de que a lógica é limitada e que desta limitação, obstrui-se o caminho da criação. Evidentemente, sem criação a arte se torna vazia.

Se supostamente, o objetivo das artes guerreiras é vivenciar o problema básico de negação ou de afirmação do ser e não ser, chegando além dos pares opostos, não será precisamente o caminho da lógica a escolha certa, mas o da espontaneidade.

Existe um “princípio duplo”, os pares opostos conhecidos entre os chineses como Yin e Yang. Este princípio está representado por um círculo dividido em duas partes que representam dois dragões, ambos invertidos entre si. Estes são dois princípios cósmicos, a dualidade básica, o céu e a terra. A linha média sinuosa que divide os opostos é o Yen, ou seja, o homem. O homem é o elemento unificador, o que reduz em si a unidade destes elementos. É a síntese que se dá como conseqüência da união dos opostos e, como síntese desta oposição, o homem não divide, mas valoriza. A linha periférica que rodeia a ambos é chamada Tao, ou seja, a consciência transcendente da unidade.

Digamos que um indivíduo se encontra em um estado de consciência cuja mente é capaz de viver em um instante o positivo e o negativo. Este indivíduo passaria por um estado de consciência superior, transcendente ou de realização. Para que haja arte marcial, o individuo deve não somente estar unificado, mas também alcançar a unidade com seu opoente.

No momento da luta, o homem deve estar em plena consciência com si mesmo. Porém, como a luta é entre dois, deverá tomar consciência de ambos. Mas como? Concentrando-se desta forma, surge o risco de ser surpreendido ou de nunca tomar iniciativa. Então, encontra-se em jogo um momento difícil, já que a mente se ocupa com a atividade de dois corpos. Esta é a dualidade.

A técnica que se deve empregar consiste em tratar de superar a dualidade, tendo consciência plena da situação. Deve-se chegar a um estado em que controlamos movimentos adversários, tão bem quanto aos nossos. A mente precisa decifrar precisamente o desenvolvimento das ações. Já não há consciência pessoal, mas universal. Por tanto, antes de iniciar o combate, há uma saudação recíproca. Esta representa a consciência da unidade transcendente, ou seja, o Tao.

A consciência se expande a tal ponto que, durante o combate, percebe-se no outro o resto da sua totalidade. Assim, temos comprovado que a finalidade na busca do homem se encontra na natureza. A luta, enfim, não é mais que uma forma de busca pela harmonia total. Se o homem logra esquecer seu sentido de competição, poderá competir em qualquer parte, pois estará em harmonia.

A razão das artes marciais repousa na natureza humana, enquanto que esta representa o universo. Com tal concepção, nos deparamos frente às técnicas que, ao invés de gerar violência, cumprem o papel de amenizá-la, posto que a violência consiste em atentar as leis naturais. Logo, um golpe deixa de ser violento e se torna uma “obra de arte”. A arte marcial é apenas um dos tantos esquemas que, expressam sua realidade de acordo com a natureza. A luta não é uma finalidade, mas um meio para definir essa realidade. Quando o homem luta, deve projetar o melhor de si. Assim que outro indivíduo recebe a informação, cabe ao mesmo se manifestar perante esta realidade.

É triste observar hoje em dia, como as competições e torneios têm desvirtuado o sentido da luta a um enfrentamento de personalidades. A intenção da busca pela realidade transcendente fora substituída por meras premiações. Nestes tempos, já não existe outra finalidade senão a “forma vazia”. A verdade está além de toda a forma, e não se pode ascender uma realidade através de uma forma vazia. Por esse motivo, o homem vive um processo de evolução somente quando toma consciência de que em seu interior se encontra um ponto de apoio para não se tornar vítima deste mundo de fenômenos. A atitude de um homem deve predominar sobre as coisas para determinar um processo.

Não existe razão para acreditar que a competição é necessária para o progresso. Mesmo quando toda a competição é finalizada, a natureza oculta em cada um de nós, torna-nos perfeitos. A técnica serve, então, para disciplinar o meio no qual o indivíduo está se desenvolvendo, e as distintas formas pelas quais o homem tem acesso lhes vão determinando um comportamento específico. Ao compreender a natureza da arte marcial, chegamos a compreender nossa própria natureza e concluiremos assim, que elas apresentam uma relação harmonicamente universal. Esta harmonia está no dinamismo da natureza, pois não há posição fixa, tudo atua neste meio, logo, o homem deve atuar também.

“Pode um homem vencer mil guerreiros em mil batalhas diferentes, mas aquele que vence a si próprio é o maior dos guerreiros.”
- A Sabedoria Kung Fu -

O Tai Chi como Terapia

A teoria e prática de exercícios para a saúde e de meditação são, na cultura chinesa, costumes muito antigos e, de fato, sua origem parece ser anterior ao início da própria escrita. Assim, as informações de como e por quem foram desenvolvidas devem ser consideradas lendárias. De acordo com uma antiga tradição, Huang Ti, o Imperador Amarelo, que assumiu o poder por volta de 2.700 a.C., praticava uma técnica de exercícios chamada Tao Yin com a finalidade de prolongar o seu tempo de vida.

A palavra Tao significa “guia” e Yin significa “comando”. Esses termos sugerem uma vaga idéia de como o exercício atua: os movimentos dos membros guiam a circulação sanguínea para que os tecidos do corpo sejam limpos e restaurados com maior eficácia. Os movimentos também comandam a entrada e saída de ar dos pulmões a fim de absorver mais oxigênio para nutrir e energizar o corpo eliminando suas toxinas com mais eficiência. Assim, o movimento é base de uma disciplina que guia e comanda os processos físicos involuntários, permitindo-lhes um funcionamento mais benéfico.

Certamente não é qualquer movimento que produzirá o efeito. Um fato notável da civilização chinesa é que o segredo de como conseguir isso foi descoberto e assimilado em tempos pré-históricos.

O essencial na prática do Tao Yin era o modo pelo qual os movimentos dos membros combinavam com a respiração. Na verdade é essa combinação que torna o exercício tão benéfico à saúde. Os exercícios de Huang Ti também eram conhecidos como T’u Na. A palavra T’u significa “expirar” e Na, “inspirar”. Conta-se que Huang Ti esteve certa vez nos montes K’ung Tung onde encontrou o sábio imortal Kuang Cheng- Tze. A fim de preservar a vida, esse mestre lhe disse que deveria ser cuidadoso em não estimular irrefletidamente suas paixões ou incitar suas emoções. Aconselhando-o ainda a se sentar em silencio e tornar sua mente mais pacifica. Acatando esse conselho e praticando seus exercícios, Huang Ti teve uma vida fascinante. Seu reinado como imperador se estendeu por quase um século.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dit Da Jow - O Vinho Medicinal Chinês

Dit Da Jow (Cantonês) ou Tieh Ta Chiao (Mandarim) significado “Vinho Tiro e Queda” (ou ungüento), se traduzirmos o termo literalmente. O Jow, como geralmente se refere, pode ser classificado em dois tipos: Han Dit Da Jow (frio) e Rei Dit Da Jow (quente).

O Jow quente é realmente aquecido para situações que requerem muita circulação, fluxo de sangue e drenagem linfática em uma área – como com a palma de ferro, onde o treinamento está constantemente magoando a pele, ossos, músculos e tecidos conjuntivos da mão e do braço, para ficarem mais duros e mais fortes, enquanto tenta manter os pontos de acupuntura na mão aberto de forma que você ao mesmo tempo possa projetar energia pela mão (Pericárdio 8 ou Coração 8 – observe-os em qualquer livro de acupuntura se você não estiver familiarizado com estes dois pontos).

O Jow frio é usado como um ungüento para ferimentos de propósitos gerais, quando houver dúvidas sobre o tipo de dano recebido e logo após o ocorrido. Suas propriedades são semelhantes ao Jow quente, exceto:
• não é aquecido,
• as ervas usadas são diferentes e,
• promover a dissolução de sangue estagnado, linfa e circulação de chi.

Ambos os tipos são esfregados na pele antes e depois de um treinamento, para melhores resultados. Deve se manter em mente que todo o segredo do Jow, está na fricção. Apenas a manipulação do tecido macio promoverá muitas das qualidades curativas sem o Jow, entretanto ele acelera o tempo curativo e previne a drenagem imprópria e problemas de estagnação.

Usa ervas chinesas comuns que são a maior parte fáceis de encontrar em catálogos de ervas ou lojas herbárias se houver um bairro ou comunidade chinesa perto de você (mas caso não consiga as ervas chinesas, utilize ervas brasileiras ou americanas com propriedades cicatrizantes).

1.Erva de Santa Maria 2.Barbatimão 3.Timbassiba 4.Didal 5.Arnica 6.Confrei 7.Cravo da índia 8.Bássimo 9.Cavalinha 10.Aroeira 11.Assa peixe ou mata campo 12.Malva 13.Sálvia 14.Sabugueiro 15.Beladona 16.Balsamo 17.Gengibre 18.1/8 xícara de óleo de pimenta-de-caiena 19.Feno-grego 20.Orelha de Urso 21.Bardana 22.Nogueira 23.Tanchagem 24.Babosa 25.Calêndula 26.Dente de leão 27.Erva de são João 28.Guaco 29.Garra do diabo 30.Guaça tonga 31.Bolsa de pastor 32.Óleo de Gualtéria (Gaultheria procumbens – O óleo é feito colocando um pouco dessa erva no azeite de oliva e fervendo por alguns minutos) 33.Cânfora 34.Artemísia 35.Borneol 36.Unha de gato 37.Mirra 38.Musk 39.Sete sangrias 40. Noz (Juglans Nigra) 41.Corobinha 42.Espinheira sant 43.Erva baleeira 44.Urtiga dióica 45.Ipê roxo 46.Mentruz 47.Própolis 48.Catechu 49.Alfazema 50.Óleo de eucalipto 51.Gergelim 52.Ginseng 53.Alfavaca 54.Alcachofra 55.Cinnabar 56.Cirsium 57.Pinellia 58.Camomila 59.Licopódio 60.Alecrim

Use 30 gramas de cada erva, verta-os em um jarro de vidro (ou misture tudo na garrafa de álcool (vodca, conhaque, vinho ou gim) – todas as ervas devem ter sido moídas ou estarem diminuídas o bastante para passar pelo gargalo). Deixe em um lugar escuro, mexendo ocasionalmente, e após um determinado período de tempo estará pronto para usar. Quanto mais tempo deixar essa mistura macerando no escuro, melhor serão seus efeitos de cura.

Classicamente quando você faz o Jow, ele deve ser enterrado por um período estendido de tempo antes de estar pronto para ser usado. Não havia nenhum argumento mágico ou místico por detrás disso. A luz solar e o calor oxidam as ervas e alteram suas propriedades químicas, lembrando que se fazia ao redor do ano 1700, onde você iria guardar esta matéria-prima quando você precisar de escuridão fria e um lugar seco? E o que você usa para fermentar e envelhecer sua mistura herbária para extrair os princípios ativos das ervas? Álcool. Isso é por que um Whískey de 100 anos é considerado tão bom.

Se você deseja ter as ervas bem saturadas, verta a mistura em um recipiente de cor escuro e coloque-o em um armário onde não seja muito quente, e periodicamente sacuda o ungüento algumas vezes durante a semana. Você deve notar que se fizer deste modo tradicional, então as ervas devem ser moídas, e não em pó. E quanto mais tempo elas fiquem na garrafa, mais forte o Jow se tornará. Esta é a razão pela qual muitos mestres de Kung Fu tradicional ou classicamente treinados não compram o Jow em lojas, mas preferem fazer o seu próprio. O Jow comprado em loja, nunca tem em seu fundo um “depósito” de ervas que são usadas em sua confecção.

O praticante de Kung Fu, e em especial do estilo Shaolin, normalmente precisa de Jow nas mãos, antebraços e em outras partes do corpo dependendo do tipo de treinamento em Qigong (Chi Kung) Marcial. As primeiras vezes em que você tentar socar com as últimas três juntas das mãos, os vasos sanguíneos normalmente são rompidos entre as duas últimas juntas. O Jow deve ser aplicado entre as juntas antes e depois do treino com o saco de esferas de ferro. Uma razão muito importante para isto é porque dois pontos de acupuntura muito poderosos residem nesses dois vales e são responsáveis pelo sistema hormonal e intestino delgado.

Com qualquer tipo de contusão ou estagnação de sangue, podem acontecer problemas na circulação e na saúde em geral. Ao fazer qualquer trabalho prolongado com o antebraço, onde contusões podem acontecer, o Jow precisa ser aplicado nos mesmos. É importante que o Jow não seja esfregado em feridas abertas, seja bebido ou aplicado nos olhos.